Arquivo de junho \02\UTC 2009

Augusto Boal: Presente!

 

augusto_boal

Um mês da morte de Augusto Boal.

Com algum atraso, nossa homenagem ao companheiro de sonhos e incansável combatente.

Carta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) escrita em homenagem a Augusto Boal, falecido no dia 2 de maio.

Companheiro Boal,

A ti sempre estimaremos por nos ter ensinado que só aprende quem ensina. Tua luta, tua consciência política, tua solidariedade com a classe trabalhadora é mais que exemplo para nós, companheiro, é uma obra didática, como tantas que escreveu. Aprendemos contigo que os bons combatentes se forjam na luta.

Quando ingressou no coletivo do Teatro de Arena, soube dar expressão combativa ao anseio daqueles que queriam dar a ver o Brasil popular, o povo brasileiro. Sem temor, nacionalizou obras universais, formou dramaturgos e atores, e escreveu algumas das peças mais críticas de nosso teatro, como Revolução na América do Sul (1961). Colaborou com a criação e expansão pelo Brasil dos Centros Populares de Cultura (CPC), e as ações do Movimento de Cultura Popular (MCP), em Pernambuco.
Mostrou para a classe trabalhadora que o teatro pode ser uma arma revolucionária a serviço da emancipação humana.

Aprendeu, no contato direto com os combatentes das Ligas Camponesas, que só o teatro não faz revolução,. Quantas vezes contou nos teus livros e em nossos encontros de teu aprendizado com Virgílio, o líder camponês que te fez observar que na luta de classes todos tem que correr o mesmo risco.

Generoso, expôs sempre por meio dos relatos de suas histórias, seu método de aprendizado: aprender com os obstáculos, criar na dificuldade, sem jamais parar a luta.

Na ditadura, foi preso, torturado e exilado. No contra-ataque, desenvolveu o Teatro do Oprimido, com diversas táticas de combate e educação por meio do teatro, que hoje fazemos uso em nossas escolas do campo, em nossos acampamentos e assentamentos, e no trabalho de formação política que desenvolvemos com as comunidades de periferia urbana.
Poucas pessoas no Brasil atravessaram décadas a fio sem mudar de posição política, sem abrandar o discurso, sem fazer concessões, sem jogar na lata de lixo da história a experiência revolucionária que se forjou no teatro brasileiro até seu esmagamento pela burguesia nacional e os militares, com o golpe militar de 1964.

Aprendemos contigo que podemos nos divertir e aprender ao mesmo tempo, que podemos fazer política enquanto fazemos teatro, e fazer teatro enquanto fazemos política.

Poucos artistas souberam evitar o poder sedutor dos monopólios da mídia, mesmo quando passaram por dificuldades financeiras. Você, companheiro, não se vergou, não se vendeu, não se calou.

Aprendemos contigo que um revolucionário deve lutar contra todas, absolutamente todas as formas de opressão. Contemporâneo de Che Guevara, soube como ninguém multiplicar o legado de que é preciso se indignar contra todo tipo de injustiça.

Poucos atacaram com tanta radicalidade as criminosas leis de incentivo fiscal para o financiamento da cultura brasileira. Você, companheiro, não se deixou seduzir pelos privilégios dos artistas renomados. Nos ensinou a mirar nos alvos certeiros.

Incansável, meio século depois de teus primeiros combates, propôs ao MST a formação de multiplicadores teatrais em nosso meio. Em 2001 criamos contigo, e com os demais companheiros e companheiras do Centro do Teatro do Oprimido, a Brigada Nacional de Teatro do MST Patativa do Assaré. Você que na década de 1960 aprendeu com Virgílio que não basta o teatro dizer ao povo o que fazer, soube transferir os meios de produção da linguagem teatral para que nós, camponeses, façamos nosso próprio teatro, e por meio dele discutir nossos problemas e formular estratégias coletivas para a transformação social.

Nós, trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra de todo o Brasil, como parte dos seres humanos oprimidos pelo sistema que você e nós tanto combatemos, lhes rendemos homenagem, e reforçamos o compromisso de seguir combatendo em todas as trincheiras. No que depender de nós, tua vida e tua luta não será esquecida e transformada em mercadoria.
O teatro mundial perde um mestre, o Brasil perde um lutador, e o MST um companheiro. Nos solidarizamos com a família nesse momento difícil, e com todos e todas praticantes de Teatro do Oprimido no mundo.

Dos companheiros e companheiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

02 de maio de 2009.

40 anos do Cordobazo [Argentina, 1969]

O crime dos ricos e a crise dos pobres. O crack da bolsa e o crack da boca.

 

esp_crise_banner_150Na última semana duas notícias relacionadas aos impactos da chamada “crise financeira mundial” em Feira de Santana chamaram atenção. A primeira foi a divulgação dos dados oficiais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) sobre as demissões na cidade. Segundo o MTE, 337 postos de trabalho foram fechados no mês de abril em Feira de Santana, as demissões se concentraram principalmente no setor produtivo, nos serviços industriais e no comércio.

Outro fato que também chamou atenção foi uma enorme fila formada em frente à Casa do Trabalhador, lembrando aquelas da grande depressão de 1929. O motivo da fila foi o boato, que logo se descobriu ser falso, sobre a abertura de 500 postos de trabalho na cidade.

O objetivo deste artigo é pontuar alguns elementos sobre o que o inimigo de classe, ou seja, os capitalistas, seus governos e sua mídia, não por acaso chamam de “crise” e que na verdade deveria ser chamada de “natureza criminal do sistema capitalista”, assim como, as conseqüências dessa nova ofensiva dos poderosos sobre o povo pobre e a classe trabalhadora, em particular, na princesa comercial, na cidade-encruzilhada.

Operando o crime

A operação desse “novo crime” dos capitalistas, ou seja, da “crise” que eles construíram, é algo que nos seus detalhes se torna de difícil compreensão, mas que grosso modo, parte da mesma premissa de sempre: a necessidade que este sistema possui de aumentar seus níveis de dominação, opressão e exploração, como método de se perpetuar e garantir assim seus níveis de hegemonia.

A bolha imobiliária dos EUA, as quedas nas bolsas de valores em todo o mundo, a falência de grandes empresas, a derrama de dinheiro público nos bolsos dos grandes capitalistas de um lado e o arrocho para os trabalhadores de outro, são as imagens mais comuns da tal “crise”. Contudo, entender este processo complexo que envolve o Sistema Swift, as TICs e as transações financeiras de derivativos, nos leva à um única conclusão possível: a intencionalidade criminosa do sistema na produção dessa nova “crise”. E esta conclusão, nos conduz a uma polêmica, nominalmente, com os métodos marxistas de análise: está crise não é de superprodução, ou uma crise cíclica do capital que se enquadra no determinismo das “leis do pensamento econômico”, como disse, é um fenômeno muito mais complexo.

O povo pobre sempre esteve em crise

E enquanto os ricos promovem mais uma ofensiva combinada nos campos da ideologia, da economia e da política, esta crise não é novidade do lado de cá. Para o povo oprimido “viver em crise” não é nenhuma novidade. Em Feira de Santana, dominada pela mão-de-ferro de uma oligarquia paternalista, associada às máfias como a do transporte coletivo, da grilagem e especulação imobiliária, uma burguesia comercial já há muito firmada e um setor industrial crescente, a realidade vivida às margens, onde a “crise” não é surpresa alguma, é como em todas as grandes cidades do país. Nas nossas periferias e quebradas são as relações que envolvem o crack, o ferro, o sangue-no-olho, as proto-milícias (os populares grupos de extermínio) e a polícia corrupta que definem quem vive e quem morre, ou seja, na favela “a mãe que vai chorar” é só mais uma, que chora por um crime premeditado e necessário para a reprodução e perpetuação do sistema.

E enquanto a jogatina política do PT, PMDB, DEM, PSDB e das legendas de aluguel vai se costurando nos bastidores para a sucessão do ano que vem ao Palácio de Ondina, Assembléia e Câmara de deputados, serviços como a saúde pública e a educação são cada vez mais precários e que combinados com o aumento do desemprego, vão fazendo da princesa comercial, que outrora dizia-se que não seria afeta pelo crise, exatamente por seu caráter comercial, na campeã em concentração de riqueza e de extermínio do povo pobre.

1° de junho de 2009.

Feira de Santana, a Terra de Lucas.

Das trincheiras da guerra de classes!

Sobre este tema, indicamos:

Estratégia e Análise: A intencionalidade do capitalismo é o crime quase suicida

Discurso da Federação Anarquista Gaúcha sobre conjuntura no 1° de Maio de 2009


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