Entrevista: “As discussões e alternativas de luta que surgiram com o processo de mobilização iniciado no primeiro semestre, subverteram completamente a ordem há muito instituída pelo grupo que compõe a direção da APLB”

Publicamos aqui a entrevista feita com a companheira Ana Verena, professora da rede municipal de educação, para a seção "Trabalhadores em Luta" do periódico popular Combate, que terá sua edição experimental publicada neste mês de agosto.

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Periódico Combate: Companheira, você poderia nos dar um panorama geral das mobilizações dos/as professores/as no primeiro semestre, comentando sobre as condições de trabalho e a situação das escolas da rede municipal hoje?

Ana Verena: É comum ouvirmos o discurso pedagógico conservador de que a vontade de Educar deve prescindir até mesmo as condições mínimas para tal, a atual gestão pública da Educação municipal, seguindo a promessa de um terceiro mandato, resolveu explorar esta máxima em todo o seu potencial, e ser a orquestradora de um “faz de conta” tão pouco convincente que vem desmoronando paulatinamente durante este ano.

A farsa que vinha sendo mantida sob controle explodiu de uma forma coletiva no início do ano letivo de 2009. Escolas sem poder iniciar suas aulas pelas carências mais primárias. Faltavam salas, faltava água, faltavam carteiras, faltava professores, funcionários para as mais variadas funções, faltava merenda escolar, manutenção das precárias instalações. Mas para mostrar a todos que para educar não é preciso nada além de muita imaginação, a então secretária de educação Anaci Bispo Paim pois a funcionar à todo vapor sua fantástica fábrica de ilusões: se falta manutenção das instalações a solução é simples, convoca-se um mutirão entre os pais de alunos para lavar a escola, se falta professores e sobra aluno é porque o bolo não foi bem dividido, que tal mais alunos por professor? Mas não contente em contribuir com o problema histórico da superlotação das salas, que se explica não só pelo excesso de alunos, mas também pelo tamanho inadequado de muitas salas, a secretária resolveu criar mais um problema convocando estagiários para assumir a demanda, que todos sabemos não ser nova, sem firmar com eles qualquer compromisso formal, em outras palavras, estagiários pagando para trabalhar, recebendo com atraso e por conseqüência abrindo um rodízio incessante de professores nas escolas que até o momento não foi sanado.

Para o secretário que a sucedeu, foi preferível se apegar ao honroso argumento de que todos os aprovados no último concurso foram chamados, escamoteando a importante informação de que muitos não assumiram, já que desde o primeiro mandato do ex-prefeito José Ronaldo nunca se fez um concurso público levando em conta as demandas reais de professor e nem a formação do professor recém concursado, trocando em miúdos, professor de história ensinando Educação física, ou de Matemática alfabetizando com o agravante de só receber o valor estipulado pelo plano de carreira para sua formação profissional (graduação ou pós-graduação) após o período probatório de 3 anos sem direito aos valores retroativos.

É muito claro que esse edifício de problemas erigido sobre um alicerce de mentiras não duraria muito tempo de pé. Continuou e continua faltando, desde a água ao professor. Mas um fator novo surge em meio a esta ambiência no momento que içado pela demanda corporativa do reajuste salarial os professores iniciam uma mobilização na qual paulatinamente a socialização das indignações pessoais a respeito das precárias condições de trabalho e descaso generalizado com a educação, vai deixando de ser pano de fundo para dar consistência a luta da categoria. O que se vê a partir deste momento entre os professores municipais de Feira é por um lado o surgimento, ou ressurgimento, das discussões sobre as necessidades de apresentar as nossas reivindicações de uma forma combativa e por outro a percepção de que os nossos problemas são estruturais, não fragmentados, portanto devem ser resolvidos desta forma.

Periódico Combate: Como você enxerga o papel da APLB-Sindicato e da atual direção frente às mobilizações?

Ana Verena: As discussões e alternativas de luta que surgiram com o processo de mobilização iniciado no primeiro semestre, subverteram completamente a ordem há muito instituída pelo grupo que compõe a direção da APLB. Acostumada a conduzir os fóruns de discussão de forma despótica, e de legitimar as ameaças do poder público como argumento para desmobilização. A direção da APLB tem se especializado em estratégias para minar a consolidação da perspectiva combativa e coletiva do movimento, atentando contra os fóruns da categoria, desviando as discussões do viés estrutural que ela tem tomado e deslegitimando as decisões tomadas pelo coletivo, contudo, o descortinamento da posição conservadora e anti-democrática da direção do sindicato, embora a muito fosse uma critica latente entre os professores, é uma conquista determinante para os rumos do movimento.

Periódico Combate: Quais as perspectivas de luta e os desafios da categoria para o próximo período?

Ana Verena: A avaliação feita sobre as perspectivas do movimento é de que ele entra na sua fase mais difícil, visto que por um lado, abraçamos audaciosamente a tarefa de contradizer o discurso falacioso do poder público de que: “A educação na cidade de Feira de Santana é uma prioridade” e por outro, a demanda histórica de remobilizar uma categoria com uma frágil confiança na mobilização coletiva, explicada por uma longa e frustrante trajetória de mobilizações abortadas – vezes pela truculência do estado, vezes pela traição da sua direção – contudo, a continuidade da mobilização até o momento atual, a legitimação massiva da categoria do fortalecimento dos fóruns, as iniciativas de fiscalização de irregularidades por parte dos mobilizados, as denuncias com relação as práticas conservadoras dentro do movimento e a consolidação de uma disputa ideológica pelos rumos do mesmo,tornam otimistas todos aqueles que julgam insustentável as condições atuais da educação municipal.

Agosto de 2009. Feira de todas as lutas e sonhos de libertação!
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