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[Entrevista] Jorge de Angélica: “A música da Rua Nova está para Feira como o sal está para a comida”

Por Paulo Robério Castro Rabelo

O reggae é paz e muito mais!

Jorge de Angélica1

Primeiro cantor de reggae em Feira de Santana e na Bahia (dizem alguns que talvez no Brasil), Jorge de Angélica, 52 anos completados no último dia 07, teve contato com a música jamaicana surgida no final da década de 1960 ainda no começo dos anos 70, através de uma emissora de rádio de Feira. Foi paixão logo à primeira audição. “Ouvi uma música de um cara do qual nunca mais ouvi falar, um cara chamado Bob Uc”, ou algo de sonoridade parecida.

Para quem nasceu cantando (“o pessoal é que pensou que aquilo fosse um choro”, costuma brincar) e foi criado nas casas de candomblé da Rua Nova, ouvindo e tocando desde os 10 anos de idade os instrumentos de percussão nas festas e rituais dos terreiros, incorporar aquela batida foi muito fácil. O negócio pegou-lhe como um visgo de jaca, do qual nunca fez o menor esforço para se livrar. Antes dos 10 anos Jorge já tirava som do que estivesse por perto: bacia de lavar roupas, mesa, tamborete, latas de querosene, latas de óleo de salada e o que mais ecoasse. Hábito do qual também não se livrara. Como o seu pai, João Amaral (filho de Xangô), que era ogã de um terreiro da Rua Nova, e sua mãe, a dona Angélica (filha do Tempo), também frequentava candomblés desde pequena, a musicalidade de Jorge, que ele também atribui a seus ancestrais, aflorou muito cedo. “Primeiramente vem de Deus, de Jesus, pois é ele quem distribui os dons”, esclarece.

Mesmo sendo “chamado de louco, ladrão e maconheiro”, como ainda se lembra, sem rancor, vez ou outra alguém lhe dava oportunidade de mostrar o talento percussivo nos sambões que aconteciam nas barracas de cerveja, típicas das festas de largo que aconteciam na Matriz, na Kalilândia e no Cruzeiro. “Eu devia ter uns 14 pra 15 anos quando o pessoal dos sambões, que já me via tocar nos terreiros, dava a chance de batucar com eles. Lembro que eram músicas de Martinho da Vila, Jair Rodrigues e quem mais estivesse em evidência”.

Enquanto isso a menina de seus olhos continuava sendo regada, embora suas apresentações se restringissem a uma pequena plateia composta por sua “galera” da Rua Nova e um ou outro apaixonado pelo ritmo que ainda estava sendo descoberto em Feira de Santana.

Muito cedo, “com uns 15 anos”, Jorge também aprende a expressar (em palavras e ritmo) questões que lhe são muito próximas e fazem parte do cotidiano seu e da sua irmandade de cor e outras que ultrapassam temas como a mera tonalidade da pele. O compositor é taxativo ao admitir que a tomada de consciência de pertencimento à cultura de matriz africana (e uma atitude afirmativa, positiva) e as injustiças históricas vividas pelo povo negro é um dos temas das músicas que compõe. “O reggae ajudou, está ajudando e vai sempre ajudar. Nas músicas de reggae, do verdadeiro reggae, você vai encontrar palavras de direitos iguais e de justiça, além de um unguento que traz alívio e cura para as feridas. Essa música é um instrumento que ajuda o indivíduo a refletir acerca do mundo e de si mesmo. Reggae, para mim, também significa paz, harmonia, amor, insistência e perseverança”.

Agitador cultural de sua comunidade, pelo ido ano de 1976 Jorge teve a ideia de montar o primeiro afoxé da Rua Nova, o “Filhos da África”, tendo como parceiros “Nezinho” e Marivaldo. O trio juntou “uma rapaziada, também autodidata, que curtia música e tinha dom para ela”, à qual ensinaram a tocar instrumentos de percussão para desfilarem nas micaretas, tocando e cantando as canções compostas por Jorge de Angélica. “Dois ou três anos depois, por uma questão da qual não me lembro, pediram que mudássemos o nome do afoxé. Então rebatizamos o afoxé de Zimbábue”, que em 1985 se tornaria o afoxé que conhecemos como “Pomba de Malê”. A primeira canção composta por Jorge para o afoxé foi “Bahia Negra”, depois vieram outros sucessos, entre os quais se destaca “Cobra Coral”.

Andar com fé e “Gana” nunca lhe falhou

Jorge de Angélica2

“Mais ou menos em 1986”, lembra-se, “uma mãe de santo do Cruzeiro, a mãe Helena [já falecida], me falou: ‘Jorge, você está sempre aqui em minha casa, tocando nas festas que eu faço… quero lhe dar um presente: Sei que você quer ter uma banda, então, arranje os músicos que eu dou os instrumentos’”.

Com o “pé no mundo” atrás dos músicos com os quais desejava montar sua primeira banda. Ele recorda que o mais difícil foi conseguir trazer para seu projeto Tonho Dionorina, músico de formação clássica, estudioso da obra de Villa-Lobos que na época dava aulas de música no Sesi. Mas nada disso intimidou o guerreiro. “Fui ao Sesi convidar Dionorina para montar uma banda. Mas havia lá uma pessoa de sua relação que o advertia: ‘Rapaz, você, um músico reconhecido vai se meter com esse cara da Rua Nova? Olha lá, veja bem, esse cara é um maluco’”, recorda.

Voltando desanimado à casa de mãe Helena, ele lhe falava: “Tá difícil, tá difícil”, ao que a sábia senhora respondia calmamente: “Rapaz, tenha fé em Deus e corra atrás. Enquanto eu estiver viva, estarei aqui pra lhe ajudar”. Sempre com Jesus Cristo à sua frente (“primeiramente”, como sempre diz o músico) e reanimado, volta à procura do filho de dona Honorina. Tonho, que já conhecia o trabalho do filho de dona Angélica na Rua Nova e no Pomba de Malê, aposta pra “ver qual é de mesmo”. Assim nasce a primeira banda de reggae de Feira de Santana e da Bahia, batizada de “Gana”, que quer dizer “vontade, apetite, desejo e ambição de conseguir, de vencer; além, é claro, de ser uma referência à República do Gana, na África”, explica o seu idealizador.

A formação de “Gana” contava com Nilton Rasta (percussão), Manoel Rasta (“que hoje está fazendo música e morando na Bélgica”), Nunes Natureza, três moças que faziam o backing vocal “e a gente chamava de ‘as doces’”, Paulo Monge (guitarra harmônica), Célio Túlio (guitarra) além de Jorge de Angélica e Tonho Dionorina, que, além de dividir o vocal com Jorge, também tocava vários instrumentos de corda.

O músico e compositor de afoxés e reggae Nunes Natureza, que hoje tem uma pequena banca onde vende doces, cigarros e jornais, na Rua Marechal Deodoro, diz que, “com certeza, o Jorge é o primeiro cantor de reggae da Bahia… desconfio que até do Brasil. Até a formação da Gana a gente não tinha conhecimento de uma banda reggae no Brasil. Logo depois é que a gente ouviu falar de uma banda apadrinhada por Gilberto Gil, composta de músicos das Guianas. Seguramente, Jorge é o mais ilustre representante do reggae no Brasil”, completa Natureza.

Nas apresentações que começaram a fazer em Feira e outras cidades do interior da Bahia, Gana tocava basicamente canções compostas por Jorge. “Numa dessas viagens, acho que para Vitória da Conquista, onde a gente ia fazer uns shows, ficamos ‘embargados’ numa barreira policial. Eu disse: ‘Glória a Deus’, e toda vez que faço isso Ele atende… Daqui a pouco vem um veículo cheio de gente importante e quem estava ao volante era um juiz de direito, ‘mamado’ àquela altura – era carnaval. Foi uma confusão danada… só sei que com a carteirada do doutor todo mundo foi liberado”.

Quase dois anos depois de formada a Gana, Dionorina se afasta. Capitaneada por Jorge, Gana ainda participou de alguns festivais, mas em pouco tempo se desfaz. A próxima banda formada por Jorge seria a “Guerrilha Radical”. A iniciativa de Jorge de montar uma banda voltada exclusivamente para a música que nasceu na Jamaica no final dos anos 1960, valeu a pena, pois em pouco tempo depois de Gana surgiram outras bandas de reggae no cenário feirense e baiano. “Aqui surgiu a banda Esperança, montada por Gilsam, lá pelo final dos anos 80”, exemplifica.

200 Letras

Jorge estima que suas composições, ao todo, cheguem a 200. Número considerado pequeno para um músico que desde criança sabia que queria viver de e para a música. “Eu compus pouco porque tenho dificuldade para escrever, então as músicas que componho vão nascendo em ‘rascunhos’ que vou armazenando em minha mente e dali mesmo eu tiro o arranjo, a letra e coisa e tal”, revela o músico autodidata, que diz que “o pouco que compus está dando para segurar a onda”.

Da “Sopa de papelão” à Trilogia do Reggae

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Nada vem fácil para o guerreiro filho de Xangô “e de Jesus, primeiramente”, como faz questão de esclarecer. Se sua primeira banda veio depois de mais de uma década de luta, o primeiro disco de Jorge lhe é dado de presente no dia 6 de abril de 1996, quando já não se gravava mais em LP, um dia antes de completar 37 anos.

“Eu procurei o deputado Zé Neto, que na época ainda não era nem vereador, e lhe pedi ajuda pra gravar meu primeiro disco, pois já havia gente do reggae, cria minha, que falava por aí que eu ‘já era’. Não precisou eu falar muito, ele disse: ‘Faça o orçamento que a gente vê como faz’. Não vacilei. Na mesma tarde eu e um camarada, que fazia a produção dos meus shows, o Paulo Humberto Sérgio, pegamos o lotação canela e fomos bater na porta de uma gravadora que ficava na Maria Quitéria. Quando chegamos à gravadora, dois negões suados e usando chinelos de dedo, a recepcionista nem abriu a porta. Só perguntou o que a gente queria. Falei que era o orçamento de um CD, etc. Acho que pra se livrar logo da gente ela fez lá um cálculo qualquer e me entregou num pedaço de papel. Quando vi aquilo, não acreditei: não chegava a custar nem a metade do que eu imaginava”, lembra.

Ele recorda também que no mesmo instante voltou a bater pernas para a casa de Zé Neto. “Quando ele viu o valor, pegou o telefone, acertou logo a data de gravação e tratou de fazer o cheque pra garantir. Acho que a moça fez uma conta qualquer porque não levou o lance a sério”.

Assim veio à luz “Sopa de Papelão”, com uma faixa que dá nome ao CD, “Gangue perseguindo gangue”, “Bahia negra” e reggae love “Rosa”. Mais alguns anos depois, sempre com luta e perseverança, conseguiu gravar mais dois CDs solo: “Confiança em Deus”, com 14 faixas, e “A luta continua”, com 12.

Trilogia do Reggae

Músico de trabalho marcadamente autoral, Jorge admite que toda a sua trajetória musical solitária de décadas surtiu a metade do efeito que vem surtindo há pouco menos de dois últimos anos, quando somou forças com Dionorina e Gilsam para apenas um show, batizado de Trilogia do Reggae, e que aconteceria “graças à providencial proposta da professora Selma Soares”.

Selma Soares, professora de História e Teoria da Arte na Uefs, à época a que Jorge se refere (2009), era diretora do Centro Universitário de Cultura e Arte , o Cuca. Jorge a procurou pedindo o espaço do teatro de arena do Cuca para um show de reggae. Admiradora do trabalho de Jorge, ela lhe diz: “Gostei muito da ideia, Jorge. Mas, que tal se a gente a ampliasse?” Assim foi proposto a ele uma parceria com dois outros grandes reggaeman, que ele já conhecia do afoxé “Pomba de Malê”: Gilsam e Tonho Dionorina. O encontro, que seria apenas um show, foi batizado de “Trilogia do Reggae”.

Resumo da ópera: Por problemas técnicos o show foi desmarcado em cima da hora e só aconteceu quase um mês depois, em novembro de 2009. Sucesso e reconhecimento de um público bem maior, Trilogia do Reggae superou as expectativas. E a formação feita para um show extrapolou os limites: Nos carnavais de 2010 e 2011 de Salvador “Trilogia do Reggae” teve trio elétrico no principal circuito; assim também aconteceu na Micareta de 2010 e deve repetir-se nesta. Eia!

Fonte: http://pagina3dofolha.blogspot.com/

Baixe: http://jorgedeangelica.blogspot.com/ 

Fotos por Dolores Rodrigues

Entrevista: “As discussões e alternativas de luta que surgiram com o processo de mobilização iniciado no primeiro semestre, subverteram completamente a ordem há muito instituída pelo grupo que compõe a direção da APLB”

Publicamos aqui a entrevista feita com a companheira Ana Verena, professora da rede municipal de educação, para a seção "Trabalhadores em Luta" do periódico popular Combate, que terá sua edição experimental publicada neste mês de agosto.

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Periódico Combate: Companheira, você poderia nos dar um panorama geral das mobilizações dos/as professores/as no primeiro semestre, comentando sobre as condições de trabalho e a situação das escolas da rede municipal hoje?

Ana Verena: É comum ouvirmos o discurso pedagógico conservador de que a vontade de Educar deve prescindir até mesmo as condições mínimas para tal, a atual gestão pública da Educação municipal, seguindo a promessa de um terceiro mandato, resolveu explorar esta máxima em todo o seu potencial, e ser a orquestradora de um “faz de conta” tão pouco convincente que vem desmoronando paulatinamente durante este ano.

A farsa que vinha sendo mantida sob controle explodiu de uma forma coletiva no início do ano letivo de 2009. Escolas sem poder iniciar suas aulas pelas carências mais primárias. Faltavam salas, faltava água, faltavam carteiras, faltava professores, funcionários para as mais variadas funções, faltava merenda escolar, manutenção das precárias instalações. Mas para mostrar a todos que para educar não é preciso nada além de muita imaginação, a então secretária de educação Anaci Bispo Paim pois a funcionar à todo vapor sua fantástica fábrica de ilusões: se falta manutenção das instalações a solução é simples, convoca-se um mutirão entre os pais de alunos para lavar a escola, se falta professores e sobra aluno é porque o bolo não foi bem dividido, que tal mais alunos por professor? Mas não contente em contribuir com o problema histórico da superlotação das salas, que se explica não só pelo excesso de alunos, mas também pelo tamanho inadequado de muitas salas, a secretária resolveu criar mais um problema convocando estagiários para assumir a demanda, que todos sabemos não ser nova, sem firmar com eles qualquer compromisso formal, em outras palavras, estagiários pagando para trabalhar, recebendo com atraso e por conseqüência abrindo um rodízio incessante de professores nas escolas que até o momento não foi sanado.

Para o secretário que a sucedeu, foi preferível se apegar ao honroso argumento de que todos os aprovados no último concurso foram chamados, escamoteando a importante informação de que muitos não assumiram, já que desde o primeiro mandato do ex-prefeito José Ronaldo nunca se fez um concurso público levando em conta as demandas reais de professor e nem a formação do professor recém concursado, trocando em miúdos, professor de história ensinando Educação física, ou de Matemática alfabetizando com o agravante de só receber o valor estipulado pelo plano de carreira para sua formação profissional (graduação ou pós-graduação) após o período probatório de 3 anos sem direito aos valores retroativos.

É muito claro que esse edifício de problemas erigido sobre um alicerce de mentiras não duraria muito tempo de pé. Continuou e continua faltando, desde a água ao professor. Mas um fator novo surge em meio a esta ambiência no momento que içado pela demanda corporativa do reajuste salarial os professores iniciam uma mobilização na qual paulatinamente a socialização das indignações pessoais a respeito das precárias condições de trabalho e descaso generalizado com a educação, vai deixando de ser pano de fundo para dar consistência a luta da categoria. O que se vê a partir deste momento entre os professores municipais de Feira é por um lado o surgimento, ou ressurgimento, das discussões sobre as necessidades de apresentar as nossas reivindicações de uma forma combativa e por outro a percepção de que os nossos problemas são estruturais, não fragmentados, portanto devem ser resolvidos desta forma.

Periódico Combate: Como você enxerga o papel da APLB-Sindicato e da atual direção frente às mobilizações?

Ana Verena: As discussões e alternativas de luta que surgiram com o processo de mobilização iniciado no primeiro semestre, subverteram completamente a ordem há muito instituída pelo grupo que compõe a direção da APLB. Acostumada a conduzir os fóruns de discussão de forma despótica, e de legitimar as ameaças do poder público como argumento para desmobilização. A direção da APLB tem se especializado em estratégias para minar a consolidação da perspectiva combativa e coletiva do movimento, atentando contra os fóruns da categoria, desviando as discussões do viés estrutural que ela tem tomado e deslegitimando as decisões tomadas pelo coletivo, contudo, o descortinamento da posição conservadora e anti-democrática da direção do sindicato, embora a muito fosse uma critica latente entre os professores, é uma conquista determinante para os rumos do movimento.

Periódico Combate: Quais as perspectivas de luta e os desafios da categoria para o próximo período?

Ana Verena: A avaliação feita sobre as perspectivas do movimento é de que ele entra na sua fase mais difícil, visto que por um lado, abraçamos audaciosamente a tarefa de contradizer o discurso falacioso do poder público de que: “A educação na cidade de Feira de Santana é uma prioridade” e por outro, a demanda histórica de remobilizar uma categoria com uma frágil confiança na mobilização coletiva, explicada por uma longa e frustrante trajetória de mobilizações abortadas – vezes pela truculência do estado, vezes pela traição da sua direção – contudo, a continuidade da mobilização até o momento atual, a legitimação massiva da categoria do fortalecimento dos fóruns, as iniciativas de fiscalização de irregularidades por parte dos mobilizados, as denuncias com relação as práticas conservadoras dentro do movimento e a consolidação de uma disputa ideológica pelos rumos do mesmo,tornam otimistas todos aqueles que julgam insustentável as condições atuais da educação municipal.

Agosto de 2009. Feira de todas as lutas e sonhos de libertação!

Noam Chomsky: o império contra o demasiado independente e desobediente Irã

Por Kourosh Ziabari, 27 de Maio de 2009

Noam Noam Chomsky não precisa de apresentação. De acordo com o The Guardian, trata-se, indiscutivelmente, do catedrático e analista sócio-político mais importante da era contemporânea e está considerado junto a Marx, Shakespeare e a Bíblia, como uma das dez fontes mais citadas da humanidade, e é também o único escritor, entre eles, que ainda está vivo.

Em referência ao livro Hegemonia e Sobrevivência de Chomsky, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, dirigindo-se à Nações Unidas, disse: “Convido-os, com todo o respeito, a quem ainda não tenha lido o livro, a que o façam.”

Em resposta à pergunta formulada numa entrevista em 2006 sobre que ações tomaria se fosse presidente, Chomsky respondeu: “Instauraria um Tribunal de Crimes de Guerra para os meus próprios crimes pois caso tivesse assumido essa posição teria que tratar com a estrutura institucional e com a cultura, a cultura intelectual. A cultura deve ser curada”.

Nesta entrevista, conversei com o professor Chomsky sobre o Irã, os assuntos nucleares, as relações entre Washington e Teerã e o impacto global dos lobbies sionistas. Um resumo desta conversa foi primeiramente publicado no diário iraniano de língua inglesa “Teheran Times”.

Kourosh Ziabari – Professor Chomsky, o senhor tem reiterado em numerosas ocasiões que a maior parte dos países do mundo, incluindo os membros do Movimento dos Países Não Alinhados, apóia o programa nuclear iraniano, no entanto, os neoconservadores dos Estados Unidos continuam a proclamar o seu lema agressivo.

Noam Chomsky – O Movimento dos Países Não Alinhados, mas também a grande maioria dos americanos pensa que o Irã tem o direito de desenvolver energia nuclear. Todavia, quase ninguém nos Estados Unidos tem consciência disso. Isto inclui todos aqueles que são inquiridos e que provavelmente acreditam que são os únicos que pensam assim. Nunca se publica nada sobre este tema. O que aparece constantemente nas mídias é que a comunidade internacional exige que o Irã suspenda o enriquecimento de urânio. Em quase nenhum meio se explica que a designação “comunidade internacional” é utilizada convencionalmente para se referir a Washington e a quem estiver de acordo, não só sobre este assunto mas em geral.

Kourosh Ziabari – A maioria dos analistas de assuntos internacionais ainda não pôde assimilar o duplo critério nuclear do governo dos Estados Unidos. Apesar de apoiar o arsenal atômico de Israel continua a pressionar o Irã para que suspenda os seus programas nucleares. Quais são as razões? Possui a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) autoridade suficiente para investigar os casos de armamento nuclear em Israel?

Noam Chomsky – O ponto fundamental foi explicado com franqueza por Henry Kissinger. O Washington Post perguntou-lhe por que razão ele agora afirma que o Irã não necessita da energia nuclear e que, por conseguinte, deve estar a trabalhar para construir uma bomba, enquanto em 1970 insistiu que o Irã necessitava de ter energia nuclear e que os Estados Unidos deviam prover o xá com os meios necessários para o conseguir. Foi uma resposta típica à Kissinger. Era um país aliado e, por isso, precisava de energia nuclear. Agora, que já não era um país aliado, não necessitava de energia nuclear. Israel, pelo seu lado, é um país aliado, mais precisamente um Estado-cliente. Por isso, herda do amo o direito a fazer o que quer.

A AIEA possui a autoridade, contudo os Estados Unidos nunca permitiriam que a exerça. A nova administração dos Estados Unidos não tem dado provas de nenhuma alteração nesse sentido.

Kourosh Ziabari – Existem quatro estados soberanos que ainda não ratificaram o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e que desenvolvem livremente bombas atômicas. Será o Irã libertado das pressões constantes; deve obter a sua ratificação e abandonar o tratado?

Noam Chomsky – Não, isso só faria aumentar as pressões. Excluindo a Coréia do Norte, todos esses países recebem apoio extensivo dos Estados Unidos. O governo de Reagan, fingia ignorar que o seu aliado Paquistão desenvolvia armas nucleares, para que a ditadura recebesse ajuda massiva dos Estados Unidos. Também os Estados Unidos, aceitaram ajudar a Índia a desenvolver as suas instalações nucleares; Israel é um caso especial.

Kourosh Ziabari – Que prováveis fatores poderiam dificultar a realização de conversações diretas entre o Irã e os Estados Unidos? É maior a influência do lobby judaico do que a dos sistemas empresariais dos Estados Unidos?

Noam Chomsky – O lobby judaico tem alguma influência mas é limitada. Isto foi demonstrado, uma vez mais, no caso do Irã no verão passado, durante a campanha presidencial, quando a influência dos lobbies se encontrava no seu apogeu. O lobby israelita pretendia que o Congresso aprovasse uma legislação que se aproximasse de um ato de bloqueio ao Irã, um ato de guerra. A medida obteve um apoio considerável, mas desapareceu de imediato, provavelmente devido à Casa Branca deixar bem claro, discretamente, que se opunha.

Quanto aos verdadeiros fatores, ainda não temos registros suficientes, de modo que é necessário especular. Sabemos que a grande maioria dos americanos quer ter uma relação normal com o Irã, mas a opinião pública raramente influencia a política. As grandes companhias dos Estados Unidos, incluindo as poderosas empresas de energia, gostariam de explorar os recursos petrolíferos do Irã. Contudo, o Estado insiste no contrário. Suponho que a razão principal é que o Irã é demasiado independente e desobediente. As grandes potências não toleram aquilo que eles consideram ser parte dos seus domínios e as regiões de maior produção de energia do mundo há muito que são consideradas domínio da aliança anglo-americana, agora com o Reino Unido reduzido a sócio subalterno.

Kourosh Ziabari – Haverá uma transformação tática ou sistemática na aproximação dos principais meios de comunicação social ao Irã durante a presidência de Obama? Podemos esperar uma redução da propaganda anti-Irã?

Noam Chomsky – Em geral, as mídias aderem ao sistema geral da política de Estado embora algumas vezes os programas políticos sejam criticados com fundamentos táticos. Muito irá depender, portanto, da postura que assuma o governo de Obama.

Kourosh Ziabari – Finalmente, acredita que o presidente dos Estados Unidos deveria seguir a proposta do Irã e pedir desculpa, pelos seus crimes históricos contra o Irã?

Noam Chomsky – Creio que os poderosos sempre devem reconhecer os seus crimes e pedir desculpa às vítimas e ainda reparar os danos causados. Infelizmente, o mundo rege-se maioritariamente pela máxima de Tucidides: os fortes fazem o que querem e os fracos sofrem como lhes é devido. Lentamente, a pouco e pouco, o mundo, em geral, torna-se mais civilizado. Mas ainda tem muito caminho a percorrer.


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